sábado, 3 de julho de 2010

Alemanha 4 x 0 Argentina

Alemanha, Argentina, St. Peter com Abobrinha e Purê com Raiz-Forte

Sábado. Mais um dia para testes culinários. Fiz uma variação das duas últimas semanas. Utilizei o St. Peter. A receita, novamente, é do Mestre-Cuca Larousse: St. Peter com Abobrinha. Descobri, nesse intervalo, que o St. Peter é a mesma coisa que St. Pierre, e ambos são, nada menos, que a tilápia. 

A receita é simples: 

- St. Peter - 2 filés cortados em 4 cada; 
- Suco de Limão (usei o siciliano, mas acredito que o taiti ficaria melhor)
- Raspas de Limão
- 3 colheres de manteiga (uso margarina das boas, se é que existe margarina boa, para controlar o colesterol)
- Sal e Pimenta a gosto 
- 500g de abobrinha cortada em rodelas bem finas 

O preparo do peixe é simples. 

No alumínio coloca-se a margarina e as abobrinhas e, sobre ambos, os filés já temperados e o suco de limão. As raspas vão sobre os peixes. Fechamos bem o papilote e tudo vai ao forno pré-aquecido em aproximadamente 240ºC. Deixei por 25 minutos. Durante esse tempo, Klose marcou mais um gol para a Alemanha. 

O St. Peter é um peixe saboroso. Mas feito como a receita acima, inexperientes como eu podem ter dúvidas com relação ao ponto exato. Tirei do forno, confesso, com dúvidas quanto ao fato de já estar, ou não, assado. A proposta não era, definitivamente, comer sashimi quente! Felizmente, meus 25 minutos foram suficientes (em tempo: a receita mencionava 10 minutos no forno). 


O acompanhamento é simples. 

Basta ver a receita do purê da última semana. Fiz uma pequena variação na forma de preparar o purê, tentando deixá-lo mais liso e com uma textura melhor: pouco antes de finalizar a preparação, passei novamente o purê pelo espremedor duas vezes. Não sei se fez alguma diferença, mas ficou com uma textura muito boa. 



Montei os pratos com na última semana. R. dessa vez não ficou tão surpresa, mas elogiou bastante.  Cortei algumas ervas, preparei a salada com mini agrião temperado com limão e fiz pequenas bolinhas com a raiz-forte que havia sobrado. 

Mais um gol da Alemanha. Argentina praticamente eliminada da Copa do Mundo da África. É o contrário da teoria do Nash. Se estamos na pior, que o opositor também esteja na mesma situação! 


Começo a montagem do prato. Acho que fiz errado. Ao menos em comparação com o que vemos na televisão e no cinema, em que os chefs primeiro colocam sobre o prato o que é principal para, em seguida, irem decorando os pratos. Fiz o contrário. Nesse caso específico, a ansiedade por finalizar rapidamente é maior que o método. 

Não posso dizer, porém, que o resultado ficou ruim. Não mesmo! Para um advogado como eu, canhoto, e sem nenhuma instrução quanto à culinária, acredito ter feito o meu segundo melhor prato. Faltou, talvez, um pouco mais de cor ao peixe, mas a solução desse problema fica para a próxima semana. 

Vejam o resultado ao lado. 


Acompanhado por cerveja preta e pelos comentários do Trajano na Espn Brasil.







segunda-feira, 28 de junho de 2010

Os Quatro Grandes - Faz parte o Rio da Argentina?


Os Quatro Grandes é, até o momento, o caso mais cinematográfico em que Poirot se envolveu. Bem, o assassinato de Roger também daria um bom filme. Não aqueles com Poirot de bigodão. Perdoem-me os puristas, mas seria preciso atualizar o visual de nosos querido detetive belga.

Nele, Hastings retornou à Inglaterra após uma breve temporada na Argentina. Digna de nota é a paciência revelada por sua recém esposa, Cinderela, que sem maiores problemas ou reclamações permitiu e compreendeu a prolongada ausência de seu novo marido. Este, ao chegar à Inglaterra e realmente surpreender Poirot, surpreende-se ele próprio com o fato de que Poirot preparava-se para viajar à América do Sul. Sim! Agatha Christie conhecia o Rio e enviaria Poirot para resolver certo mistério naquela exótica cidade.

Não está claro - e esse é o registro que faço nesse post - se para Agatha Christie estava, ou não, claro que a Argentina não tinha nada a ver com o Rio de Janeiro. Vejam: ao justificar o motivo da viagem, Poirot apresenta duas razões: (a) o dinheiro envolvido; (b) a amizade com Hastings. 

Ele diz: "Uma de suas secretárias entrou em contato comigo. Está havendo muita confusão com uma de suas grandes companhias no Rio. Ele desejava que eu investigasse o assunto.".  

E, sobre os motivos que o levaram a aceitar o trabalho, primeiro o dinheiro: "Era mais que suficiente - uma fortuna. E havia ainda uma segunda atração - você, meu amigo. Por um ano e meio tenho sido um velho muito solitário. Pensei comigo: - por que não? (...) Pensei: - pego aquele dinheiro e vou me estabelecer em algum lugar perto de meu amigo.". 



Em outra passagem, Hastings faz menção ao seu retorno a Buenos Aires. Mas, como percebemos, não há nenhuma palavra sobre o Brasil.  Então, fica em suspenso, portanto, a questão de se definir se para Agatha Christie o Rio era, ou não, parte da Argentina.


Esse é o contexto inicial da obra.

A minha edição é da Editora Nova Fronteira. É a 7ª edição, e a tradução é de Maria Marta de Miranda. A edição de R. é da Berkley Book, adquirido pelo Submarino. 

Questões finais deste post: 

a. sobre os dados dessa edição: "Proibida a exportação para Portugal e países africanos de língua portuguesa". Questão de idioma ou de direitos autorais? 

 b. sobre o título em inglês: "The Big Four", pode-se comentar que essa expressão - que, no livro, se refere a um quarteto de criminosos mundialmente influentes - também é muito usada para indicar as quatro grandes empresas de auditoria: KPMG, PWC, Delloite e EY; e é também utilizada para referências a quatro grandes do trash music: Metallica, Slayer, Megadeth e Antrax. Para ser muitíssimo sincero, jamais ouvi esse Antrax. Mas, na música, poderíamos igualmente faz referência a Jonh, Paul, Ringo e George.


c. e-book pode ser obtido em http://www.livrosgratis.net/download/749/os-quatro-grandes-agatha-christie.html (mas não asseguro a qualidade da tradução). 





domingo, 27 de junho de 2010

Nova Receita

Mais uma receita. Torta com Recheio

Sempre quis aprender a fazer tortas. Não as de liquidificador, e sim as de massa dura. Fantástica é a massa, amassar os ingredientes com a mão, dar a consistência desejada e, após algumas semanas preparando sempre a mesma receita, perceber a sensibilidade crescente quanto às variações: mais manteiga, menos farinha, mistura farinha integral, e por aí vai. Massas sempre foram um segredo nunca antes partilhado comigo.

Lembro-me bem as tortas da minha mãe. Não eram saborosas. Lembro também as tortas da minha avó. Bem, não lembro tão bem assim das massas que ela fazia, e sim do recheio. Antes o recheio era mais importante - e ainda é, por certo - mas a massa ganhou a sua importância. É uma moldura que deve ficar inerte? Servir apenas de receptáculo ao recheio? Penso que não. Por hora, é claro.

Essa massa foi obtida na internet cerca de um mês atrás. Queria fazer algo leve com queijo cottage, e localizei uma receita de Torta com Peito de Peru e Queijo Cottage. 

Vamos a ela:

Massa:

- 2 xícaras de farinha de trigo;
- 1 clara;
- sal a gosto;
- 3 colheres de sopa de manteiga;
- um punhado de salsinha bem picada.

É só misturar tudo - com as mãos é mais divertido - e terás a massa em poucos minutos. As variações que tentei envolveram colocar mais mantega (fica mais quebradiça), e misturar 40% de farinha de trigo integral (fica mais dura, e um pouco mais pesada - e bem menos saborosa, apesar de supostamente mais saudável).


Recheio:

-200 g de peito de peru picado;
- 2 ovos (ou duas claras para ficar mais saudável);
- 1 colher de sopa de leite em pó (não obrigatório - até agora não sei exatamente o motivo desse ingrediente);
- um punhado de salsinha picada;
- um punhado de cebola picada;
- sal a gosto;
- queijo ralado.
- 200 g de queijo cottage

Misture tudo muito bem, exceto o peito de peru.

Abra a massa com um rolo, deixando-a bem fina. Unte uma assadeira média, vestindo seu interior com a massa. Despeje o peito de peru picado, e, sobre ele, o recheio. Salpique queijo ralado.

Leve ao forno pré-aquecido em 150ºC por aproximadamente 30 minutos.

Comigo e com R. sempre servimos quente.

Variações do recheio envolvem:

- Espinafre, Cottage, Claras

ou

- Escarola, Cottage, Claras

Hoje tentei essa última variação, mas não ficou muito bom. Inventei demais. Foi hoje o dia da farinha integral, então a massa não estava tão saborosa. E ao refogar a escarola, temperei com muita noz-moscada. E, para piorar, coloquei pimenta rosa esmagada. Não ficou como a da semana passada e no entanto R. repetiu o prato duas vezes. Eu? Quatro.

Acabou a torta.

Acabou o post.

Agora sim, boa semana!

Efeitos da Anchova

Um dia depois de preparar uma receita aplaudida demoradamente por R. Os efeitos são os seguintes: 

a. Louça para lavar. Anchovas tem um odor característico. É curioso, pois cruas têm odor desagradável, quando fritas, assadas ou cozidas, isso se altera profundamente. Ficam com paladar, odor e textura fantásticos. Mas o fato é que a louça - lembrem, usei azeite para "grelhar" (100 ml de azeite é quase para "fritar) - ficou com um cheiro forte de Anchovas. Só com muita água quente depois foi possível amenizar essa lembrança; 

b. Cozinha para limpar. Foi o mesmo efeito. Hoje pela manhã tive de usar um pano com álcool para limpar o fogão. R. nem se mexe. 

c. Noite no hospital. Coincidência ou não, ontem visitei o Hospital. Aquele, vizinho ao Estádio do Morumbi. Emergência médica de hospital sofisticado é diferentel. Já frequentei emergência em hospitais no litoral, em outras Capitais e, aqui em SP, já estive em alguns "bons" prontos-socorros. Mas em nenhum deles o médico se demorou a explicar a diferença entre "sintomas" (o que eu relato) e "sinais" (o que ele visualiza pelo exame clínico). É isso mesmo: semiótica aplicada à medicina. 

Confesso-lhes que era um mau estar relacionado com dormência em um dos braços. Na minha idade isso assusta. Creio que não tinha a ver com as Anchovas. Talvez com a mistura delas aos purê, à raiz-forte, ao vinho quente, à cerveja, às salsichas, ao queijo de coalho, ao curau, à pamonha, e - se não me esqueço de alguém - ao favo holandês.


Eletrocardiogramado, diagnosticado e medicado, ainda deu tempo para assistir a um trecho inicial de "Bastardos Inglórios". Adorei o final, visto só hoje, após Alemanha e Inglaterra, Festa Junina e Argentina e México.


d. Boa lembrança. O último e principal efeito no day after Anchova é aquele sabor delicioso. Todo o ruim se foi, restou apenas a boa lembrança de uma refeição com R. 

Boa semana a todos!

sábado, 26 de junho de 2010

Pausa em Poirot

Por algumas semanas terei uma pausa de Poirot. R. ainda não terminou "Os quatro grandes" (que eu ainda não comentei) e eu quero finalizar o livro da Donna Leon antes de ir para o Mistério do Trem Azul.

Anchova com Purê de Batatas e Raiz-Forte

Por acaso hoje pela manhã comprei anchovas. Planejava repetir no almoço - com as anchovas - um prato que preparei no último domingo: St. Peter com Limão. E no entanto fui convencido de que as anchovas também dariam um bom prato. Deixei-me convencer na verdade pela lembrança de Anchovas negras servidas em Gramado/RS recentemente. Anchovas negras são diferentes de anchovas descobri ao final.

Bem, durante o jogo do Uruguai 2 x 1 Coréia preparei o almoço para R. Fazia muito tempo que ela não elogiava tanto. Fiquei com um sorriso de lado a outro. É muita satisfação fazer coisas com carinho para R. pois ela realmente reconhece. É uma ótima esposa. 

Vamos ao prato: Anchova com Purê de Batatas e Raiz-Forte

Anchova
• 2 filés de anchova com pele
• Sal e pimenta-do-reino
• 100 ml de azeite

Salada
• 1 pacote de miniagrião (ou rúcula)
• 3 colheres (sopa) de suco de limão siciliano
• Raspas de 1 limão siciliano
• Sal e pimenta-do-reino

Molho para decorar
• 1 colher (sopa) de shoyu
• 100 ml de azeite

Purê

• 300 g de batatas com casca
• Sal
• 3 colheres (sopa) de manteiga
• 3 colheres (sopa) de leite
• 1 pitada de pimenta-do-reino
• 5 g de raiz-forte em pasta

Como preparar: 

Anchova: O Larousse (Mestre-Cuca) diz que anchovas são peixes delicados. E são mesmo. Não tenho muita experiência com eles. Nenhuma para falar bem a verdade. Mas agora sei o motivo pelo qual temos de grelhá-los no fogo baixo com a pele (o fogo baixo evita que o peixe grude, e a pele que ele desmonte). 

Tempere com sal e pimenta, esfregando com as mãos. Aqueça o azeite em uma frigideira, sem deixar esquentar muito (senão o peixe gruda), e grelhe os filés, primeiro do lado da pele, até que ela fique crocante. Vire e grelhe rapidamente do outro lado. Os filés devem ficar malpassados. Reserve.

Salada: tempere o com suco de limão, raspas de limão, sal e pimenta. Reserve.


Molho: coloque o shoyu e o azeite numa tigelinha e bata com batedor de arame, também chamado de fuet, até ficar bem emulsionado. Reserve.

Purê: cubra as batatas com água, junte sal a gosto e leve para cozinhar até ficarem macias. Descasque-as e passe pelo espremedor duas ou três vezes. Em outra panela aqueça a manteiga, o creme de leite, o leite e a pimenta-do-reino. Acrescente as batatas espremidas e cozinhe em fogo baixo, mexendo, até começar a soltar do fundo da panela. Adicione a raiz-forte aos poucos para avaliar o gosto, mexa bem e tire do fogo. Confira o sal e corrija, se necessário. O purê deve ser totalmente liso. Se necessário, passe-o pelo processador.

Montagem: coloque no centro de um prato fundo o purê de batata quente e, em seguida, o filé de anchova grelhado no meio do purê. Em cima do filé de anchova, arrume a salada e, em volta do purê, o molho de shoyu. Se quiser, façar umas bolinhas com a raiz-forte e ponha ao lado no prato com algum enfeite. 

A receita foi obtida pela internet (http://cybercook.terra.com.br/anchova-com-pure-de-batata-e-raiz-forte-na-comunidade.html?codigo=85986). 

Acompanhamento durante a montagem: 
- Malzbier com Debussy (R. assistia ao jogo) 

Durante o almoço:
- Lowenbrau dunkel com Mesa Redonda.

Sobremesa: Chocolate meio-amargo Caracol.

domingo, 20 de junho de 2010

O assassinato de Roger Ackroyd - Final

Agora quero falar sobre a penúltima obra que lemos no Clube de Leitura: O Assassinato de Roger Akcroyd.


O mais interessante de toda história a revelação final da relação do assassino com o narrador da história.

Não estamos, aqui, a tratar simplesmente de um narrador onisciente, ou não. Mas sim de um narrador que é, ele próprio, o culpado pelo assassinato do Sr. Roger Ackroyd. Sim! 

O Sr. Sheppard, médico de King´s Abott, é o assassino!

Para fazer esse post li alguns comentários feitos em outros blogs sobre esse livro de Agatha Christie.Em alguns, consta que à época de seu lançamento, a autora havia sido acusada de desonestidade com o público, pois teria sonegado informações essenciais àqueles desejosos de desvendar o mistério. 

Discordo! Revendo as minhas próprias anotações mentais, vejo que em momento algum o narrador falta com a verdade ao fazer o relato da história. Informações falsas não são prestadas ao leitor. Existem, é fato, omissões. Muito sutis para que sejam percebidas. 

Uma curiosidade: o autor Pierre Bayard, professor de literatura, fez uma análise bastante profunda do livro. E, segundo ele - releitura dos fatos, e, pior, após a confissão do réu - o resultado correto seria outro. A obra é "Qui a Tue Roger Ackroyd?". Não achei tradução ao português, mas apenas no original, em francês, e em inglês. Vou comprar para R. como um - dentre muitos - presentes que lhe dou.


Voltando ao livro, a verdade é que se o desenvolvimento da história é, de certo modo, cansativo, os capítulos finais do livro são deliciosos! 

 
Delicio-me com a lembrança de, vendo o livro acabar, ainda não haver nada que pudesse salvar da forca o Sr. Ralph Paton, sobrinho de Roger e único verdadeiro suspeito. Foram momentos angustiantes até ser surpreendido com a revelação final.






O Sr. Sheppard, o médico-assassino, faz companhia a Poirot em praticamente toda a história. Dessa vez, Hastings não participou, pois - segundo contou Poirot - seu amigo estava na Argentina, casado com Cinderela (a vantagem de fazer a leitura em uma suposta "ordem correta" é identificar as ligações entre as obras). São de Poirot os seguintes comentários sobre Hastings: 

"E também eu tinha um amigo - um amigo qeu por muitos anos nunca me abandonou. Algumas vezes era de uma imbecilidade que dava medo, no entanto era muito querido por mim. Imagine que eu sinto falta inclusive de sua estupidez. Sua naveté, sua perspectiva honesta, o prazer de deliciá-lo e surpreendê-lo com meus dons superiores - tudo isso me faz muita falta." 

"É que há momentos em que sou tomado por uma grande saudade de meu amigo Hastings. Este é o amigo de quem lhe falei, o que agora mora na Argentina. Sempre, quando eu tinha um caso grande, ele estava ao meu lado. E ele me ajudou, sim, frequentemente me ajudou. Pois ele tinha um dom especial, aquele de esbarrar sem querer em verdades, sem sequer perceber, bien entendu. Às vezes ele dizia algo especialmente tolo, e acredite que esta observação tola me revelava a verdade! E também era uma prática sua manter um registro escrito dos casos que eram interessantes" 

A menção ao costume de Hastings manter um registro escrito dos casos ao Sr. Sheppard é relevante, pois em certo momento se descobre que o médico nutria semelhante hábito. E isso é absolutamente relevante para o capítulo final da história!

É que, em consideração à Caroline - irmã de Sheppard - e com o intuito velado de proteger Ralph Paton, Poirot oferece uma "saída honrosa" ao Sr. Sheppard.

Após revelar sua convicção a Sheppard, Poirot sugere-lhe que finalize seus registros fiel aos fatos, e que, ao final, dê cabo de sua vida. Compromete-se com Sheppard a não revelar o conteúdo do manuscrito senão à polícia. Assim diz Poirot: 

"... a verdade será levada ao inspetor Raglan amanhã de manhã. Mas, por sua boa irmã, estou lhe dando a oportunidade de outra saída. Pode haver, por exemplo, uma overdose de um sonífero. Você me entende? Mas o capitão Paton precisa ser inocentado - ça va sans dire. Eu sugiro que você termine este seu interessante manuscrito abandonando as reticências anteriores."

E assim se desenrola o último capítulo, na tradução de Renato Rezende:

"Cinco horas da manhã, estou muito cansado, mas finalizei minha tarefa. Meus braços doem de escrever. 

Um estranho final para meu manuscrito. Eu pretendia que fosse publicado algum dia como a história de um fracasso de Poirot! É esquisito como as coisas terminam. 

Todo o tempo eu tinha uma premonição do desastre, desde o minuto em que vi Ralph Paton e a Sra. Ferrars juntos. Eu pensei naquele instante que ela confidenciava com ele; e, como se revelou, eu estava muito enganado, mas a ideia persistia mesmo depois de eu ter ido ao escritório de Ackroyd naquela noite, até que ele me disse a verdade...

(...) 


Meu maior receio todo o tempo foi Caroline. Eu imaginei que ela poderia ter desconfiado. Curiosa a maneira como ela falou naquele dia sobre meu 'traço de fraqueza'. Bem, ela nunca saberá a verdade. Há, como Poirot disse, uma saída. 


Eu posso confiar nele. Ele e o inspetor Raglan darão um jeito entre os dois. Não gostaria que Caroline soubesse. Ela gosta de mim, e, também, ela é orgulhosa... Minha morte será uma tristeza para ela, mas tristeza passa..." 


(...) 


Mas eu gostaria que Hercule Poirot não tivesse nunca se aposentado e vinco para cá cultivar abóboras."


Atualizações e "Os Viúvos"


Depois de algum tempo sem postar nada volto a escrever. 

Continuamos, é claro, com o Clube de Leitura. 

Já terminamos o Assassinato de Roger Ackroid e também já li os Quatro Grandes. Minha esposa ainda não começou esta última. 

Esta última é uma história diferente, pois não envolve um "crime social", ou seja, o roubo ou o assassinato de algum figurão da sociedade européia. A história envolve quatro grandes criminosos, um chinês, uma francesa, um americano e um último de cuja nacionalidade não me recordo. 

Mas depois falo sobre esses livros. O próximo é "O Mistério do Trem Azul".

Entre eles, tive também a oportunidade de ler:
- Os Viúvos - Mário Prata
- Acqua Alta  - Donna Leon (em andamento)  

São também policiais, e bem bacanas. Ao Mário Prata, enviei este e.mail, parabenizando-o pela obra acima mencionada: 

"Prezado Sr. Mário Prata, 
  Acabo de concluir a leitura do livro “Os Viúvos”, de sua autoria. Estou de férias, em Gramado/RS, e depois de ler “O assassinato de Roger Ackroid”, de Agatha Christie, o próximo de minha lista era o seu. A comparação é dura, mas Você - como sempre - se sai excepecionalmente bem. Como outras obras suas, encontrei uma leitura leve, agradável, que distrai o leitor ao mesmo tempo em que desperta o seu interesse pela história. Comecei ontem pela noite e finalizei no intervalo de Brasil e Coréia. 
  Muito interessante, em particular, o modo como Você colocou as tramas lado a lado: a história do E.R.N, a história do Fiora com a Tinha, a investigação da bunda. Parabéns por mais essa obra! 
  Adorei, em particular, o mote da fraude do contador. É meio absurdo pensar nisso, e muitos de seus leitores não irão acreditar em histórias semelhantes (pensarão que é pura ficção), mas – sou tributarista – e conheço casos muito parecidos. E, além disso, fiquei particularmente satisfeito com o modo como Você tratou bem a questão técnica! É verdade, há uma regra segundo a qual a infração cometida pelo particular independe de sua culpabilidade. E existem vários casos semelhantes ao seu na jurisprudência. Apenas por curiosidade, algumas variações sobre o mesmo tema:

 - fraude no recolhimento dos emolumentos por Cartórios: tabelião é responsabilizado por desvio cometido por funcionário (não tem desculpa! É o que se chama error in vigilando ou, conforme o caso, error in eligendo – é um caso perigoso, pois muitas vezes o particular entrega o dinheiro ao cartório para o recolhimento dos impostos ao formalizar uma escritura etc).

 - fraude no interior da instituição bancária: funcionários do banco fraudam a autenticação com máquina falsa (aqui, o contribuinte consegue se safar, se utilizou instituição bancária indicada pelo Fisco);

 - fraude cometida por despachante aduaneiro (muito semelhante ao relatado por Você);

 - fraude cometida por auto-escolas: existe uma taxa de serviços que é cobrada (o cliente é responsabilizado)

Abraços" 





domingo, 28 de março de 2010

Novo Livro - O Assassinato de Roger Ackroyd

 Boa noite a todos!

 Depois de uma longa jornada, finalizamos a leitura de Poirot Investiga. Na verdade, demorou bem mais tempo que imaginávamos a leitura dos 14 contos. Poirot foi ficando afiado a cada página. Suas tiradas foram melhorando. Enfim, o estilo da autora foi se aperfeiçoando com esses pequenos e singelos contos.

O mais divertido - ao menos o que vem à mente agora - é aquele em que Poirot desafia Japp apostando algum dinheiro para o caso de ele, Hercule Poirot, decifrar um determinado crime sem sair de sua própria sala. E ele ganha a aposta!

 O estilo do detetive belga é completamente anti-CSI. Em CSI não há inteligência, há - como diria o mestre - apenas perdigueiros equipados com poderosos focinhos. Mas não existem as pequenas células cinznetas que fazem brilhar como esmeraldas os olhos verdes de Poirot.

É uma pena que, nos filmes em geral, esse detetive tenha sido caracterizado como um chato de (ou melhor, sem) galochas. Imagino uma produção em que ele é caracterizado de um modo um pouco mais coll, mantendo o bigode, mais moderno. Seria bem bacana!!!

 Agora, na sequência de nosso Clube, leremos O Assassinato de Roger Ackroyd. Eu, com a minha edição de bolso da "Globo de Bolso", com tradução do Sr. Renato Rezende. Minha esposa, com o original em inglês, da Berkeley Mystery.

Com o livreto em mãos, chamou a minha atenção a dedicatória:

"Para Punkie,
que aprecia uma história policial
com assassinato, inquérito e suspeitas
que recaiam alternadamente sobre todos!"

Abraços a todos, e boa semana pré-páscoa!

"Festival na Inglaterra celebra os 120 anos de Agatha Christie

LICIA GARCÍA DE FRANCISCO 

Torquay (R.Unido), 25 mar - Idílicas e muitas vezes sinistras, as paisagens do condado de Devon, na Inglaterra, inspiraram a 'rainha do suspense' Agatha Christie e hoje, 120 anos após o nascimento da escritora, são um dos principais atrativos da região.

Greenway, a casa de veraneio da família Christie; a ilha de Burgh, onde a escritora se inspirou para uma de suas histórias mais famosas, "O Caso dos Dez Negrinhos"; e Torquay, onde nasceu: todos esses lugares, antes comuns, se tornaram ponto de interesse de turistas.

Para este ano estão programadas em todo o país diversas homenagens à escritora, celebrações que começarão em 15 de setembro, data dos 120 anos de seu nascimento, e se prolongarão durante 12 meses, até o 4ª Festival Agatha Christie.

Festival
O festival está marcado em Torquay para entre 12 e 19 de setembro e a cada ano recebe mais visitantes, como explicaram à Agência Efe os responsáveis pelo setor de turismo da pequena cidade no sudoeste da Inglaterra. Nela, Agatha Christie viveu grande parte de sua infância e adolescência.

Mas os fãs da escritora que forem ao condado podem se deparar com muitas coisas mais. Exemplo é o Grand Hotel, onde ela passou a noite de núpcias com o primeiro marido, Archibald; o Museu de Torquay, que abriga um ala dedicada à escritora; e o Teatro Princess, aonde costumava ir.

Em frente ao teatro, há o Pier da Princesa, uma bela construção com partes em madeira na qual a jovem Agatha costumava patinar com os amigos.

O Hotel Imperial, onde Agatha Christie narra cenas de pelo menos dois de seus muitos livros, é outra parada obrigatória para os fãs, segundo explica John Curran, especialista na obra e autor de um livro sobre a escritora.

Tudo isso em uma idílica cidade litorânea cuja placidez é cenário perfeito para os crimes mais retorcidos saídos da imaginação da escritora, quando a noite cai ou, simplesmente, quando chove, algo mais que comum na região.


Isso também acontece com a imponente casa de Greenway, qualificada por Agatha Christie como "o lugar mais adorável do mundo", mas que sob o habitual nevoeiro e a persistente chuva se assemelha mais ao descrito pela romancista em "Os Cinco Porquinhos".

A casa foi cedida pelo neto da escritora, Matthew Prichard, ao chamado National Trust - que administra os locais de grande interesse cultural. Em fevereiro de 2009, foi aberto ao público, com um enorme sucesso traduzido em 90 mil visitantes em seus primeiros 12 meses de funcionamento.

Conservada exatamente como na época em que a escritora era viva, a casa também possibilita que os visitantes vejam objetos que a inspiraram na criação de alguns relatos.

À vontade
E quem ficar com ainda mais vontade pode até se alojar nos apartamentos habilitados no terceiro piso da mansão, com uma capacidade para dez pessoas pelo preço de entre US$ 1.700 e 4 mil por semana, segundo explicou à Efe Margaret, uma das guias voluntárias que contam com paixão a história da casa e de Agatha.

Após a visita a Greenway, duas paradas obrigatórias para os fãs de Hercule Poirot e Miss Marple: a preciosa Dartmouth, onde ela escreveu seu primeiro romance "O Misterioso Caso de Styles", e a ilha de Burgh, em cujo hotel se inspirou para "O Caso dos Dez Negrinhos".

A minúscula ilha fica isolada pela maré durante a metade do dia e é coroada por um hotel com vistas espetaculares e decorações art decó que casam a perfeição com o estilo Agatha Christie.

Mas para poder visitar o exclusivo lugar é preciso reservar um jantar de luxo ou se alojar em um dos quartos ao módico preço de US$ 535. No pacote, o direito de se imaginar protagonista de um dos famosos contos de Agatha Christie."


sábado, 27 de março de 2010


27/03/2010 - 06h07

"Livro expõe cadernos de rascunho inéditos de Agatha Christie



Agatha Christie
Alicia García de Francisco

Torquay (Reino Unido), 27 mar (EFE).- "O Caso dos Dez Negrinhos" e a "Morte na Praia", dois dos romances mais famosos de Agatha Christie (1890-1976), poderiam ter um final diferente, como mostra um livro que analisa os 73 cadernos de rascunho da autora.

A complexa simplicidade dos romances de Christie é revelada através das dezenas de cadernos que a autora encheu com suas anotações, objeto de estudo do irlandês John Curran em "Agatha Christie's Secret Notebooks" ("Os cadernos secretos de Agatha Christie", em tradução livre), ainda não publicado em português.

Curran, especialista na obra de Agatha Christie, a escritora que mais vendeu livros no mundo - 2 bilhões de exemplares em 45 idiomas, segundo seu site oficial -, passou quatro anos analisando os rascunhos.

"Eu sabia da existência dos cadernos, mas nunca, nem em meus melhores sonhos, cheguei a pensar que acabaria lendo-os um dia e publicando um livro sobre eles", explicou Curran à Agência Efe em Torquay, cidade natal da escritora. Foi ali perto, na residência de verão dos Christie, que o especialista estudou os 73 cadernos conservados.

As anotações são "completamente caóticas". Às vezes a autora começava tratando de um livro e saltava para outro algumas páginas depois. E em alguns casos, ela retomava ideias inacabadas dez anos depois.

"No meio dos rascunhos, havia, por exemplo, listas de presentes", explica Curran. Segundo ele Christie era caótica e trabalhava ao mesmo tempo em várias histórias, o que lhe permitiu escrever 80 livros entre romances e relatos e uma dúzia de peças de teatro.

Com exceção de seis livros, todos os romances da escritora são abordados nos cadernos. O trabalho de Curran nos permite saber, por exemplo, que em "O Caso dos Dez Negrinhos" - o livro policial mais vendido de todos os tempos - a autora pensou, a princípio, em contar com oito personagens, depois 12 e finalmente os dez da história original.

E, segundo as anotações de Christie, qualquer um deles pode ser o assassino. No caso de "Os Cinco Porquinhos", desde o início a autora teve claro quem seriam os personagens, mas não quem seria a vítima ou o assassino. Já para "Morte na Praia" ela pensou em diversas alternativas para quem eram os assassinos e suas motivações.

O trabalho de Curran traz à tona uma série de detalhes que nos permitem conhecer a fundo o trabalho preparatório de uma escritora de tão grande destaque como Christie.

"A maioria dos leitores acham que ela começava a escrever os livros do começo ao fim e que em um mês já tinha uma romance pronto. Mas meu livro mostra a quantidade de trabalho que há por trás dessas histórias", explica Curran.

Christie "tinha ideias, mudava de opinião, voltava do final ao início, colocava um personagem como assassino e depois colocava outro. E às vezes parava tudo isso e começava de novo com uma ideia anterior, levando em conta cada possibilidade da trama".

Com este livro, o especialista acredita que os fãs de Christie terão uma ideia melhor de como ela realizou suas obras e de como elas são complexas.

"Muitos de seus livros foram construídos sobre premissas muito singelas. Alguém é assassinado, vítimas em ordem alfabética, alguém isola um grupo de pessoas em uma ilha e mata um por um".

Mas, segundo ele, "o fato de que pareçam tão simples para o leitor demonstra que há muito trabalho em sua criação". É a arte de uma autora que para Curran é "a melhor escritora de livros de detetives", um gênero que se caracteriza por um tipo de história na qual o leitor consegue as chaves para resolver o mistério.

"Ninguém nunca fez isso tão bem como Agatha Christie. Não considero que ela seja uma grande romancista de crimes, mas foi a melhor escritora de histórias de detetives da história".

Junto aos milhares de detalhes que encantarão os mais fanáticos, estão dois contos inéditos com Poirot como protagonista.

"A Captura de Cérbero" deveria ter sido publicado em 1947 dentro da série de contos conhecida como "Os trabalhos de Hércules", mas foi desprezado pela revista "The Strand". Segundo Curran, a revista o rejeitou provavelmente por tecer um retrato curioso de Adolph Hitler refletido em um personagem chamado Hertzlein.

É um relato que aborda uma transformação pacífica do ditador, muito diferente do segundo conto, "O Caso da Bola do Cão", um exemplo mais clássico do estilo de Christie, descoberto apenas em 2004."

 Fonte: http://entretenimento.uol.com.br/ultnot/efe/2010/03/27/livro-expoe-cadernos-de-rascunho-ineditos-de-agatha-christie.jhtm

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Pularei alguns dos contos, e passo direto até "O primeiro-ministro sequestrado". 

Nele, Hastings narra a incrível façanha de Poirot auxiliando as polícias francesa e inglesa no desvendar do mistério do desaparecimento do Primeiro Ministro.

Um detalhe para o erro lastimável na tradução. "Mandato" foi o termo utilizado como sinônimo de ordem, autorização. Na verdade, o termo técnico correto é "Mandado", com o "d". Mandado é utilizado no Direito para indicar: Mandado de Citação; Mandado de Penhora; Mandado de Segurança; etc. São ordens solicitadas ou determinadas pela autoridade judiciária. O Mandato, com o "t" é a procuração. O contrato de mandato é aquele segundo o qual o mandante (a pessoa que assina, confere, outorga a procuração) confere poderes ao mandatário (a pessoa que recebe os poderes). O mandato é oneroso ou gratuito, e pode conter cláusulas gerais (poderes gerais) ou específicas. Nas novelas é muito comum a figura da pessoa (geralmente o mocinho ou mocinha) que assinam procurações e ficam à merçe de seus procuradores inescrupulosos.

Para comprovar o erro da tradução, vejam:

"Norman e eu ficamos no carro. Poirot e um dos detetives foram até a porta da casa e tocaram a sineta. Uma criada impecável abriu a porta. O detetive falou: 
- Sou da polícita e tenho um mandato para revistar a casa." 

A rigor, seria até possível um "mandato" para revistar a casa. O detetive original recebe uma ordem autorizando-lhe a revistar a casa e, em seguida, transfere seus poderes via mandato (procuração) a outrem. Mas não é, evidentemente, o caso, e sim um erro de tradução. Absolutamente justificável, diga-se, pela sutileza da diferena!!!

Mas voltemos ao caso.

Desta vez, vou transcrever um dos melhores parágrafos de todo o conto. Ele mostra exatamente o modus operandi de Poirot e de suas "células cinzentas".

De súbito, justificando a aparente inatividade - o caso requeria a localização do Primeiro-Ministro desaparecido em um espaço de menos de 24 horas - Poirot defende-se:


"- Não é assim que um bom detetive deve agir... não é isso o que estão pensando? Já sei. Um bom detetive deve mostrar intensa energia, correr de um lado para outro, prostar-se numa estrada poeirenta para procurar marcas de pneus através de uma lentezinha. E deve também recolher pontas de cigarro e fósforos usados? É isso o que pensam, não mesmo? - Os olhos de Poirot nos desafiavam. - Mas eu... Hercule Poirot... digo-lhes que não é nada disso! As verdadeiras pistas estão dentro... aqui! - E bateu na testa, dramaticamente, antes de continuar: - A rigor, eu não precisaria ter saído de Londres. Teria sido suficiente para mim ficar sentado tranquilamente em meus aposentos. Tudo o que importa são as pequenas células cinzentas que estão aqui dentro. Secretamente, silenciosamente, elas vão cumprindo sua parte, até que de repente peço um mapa, ponho um dedo num lugar determinado e digo: o Primeiro-Ministro está aqui! E é isso mesmo! Com método e lógica, pode-se conseguir qualquer coisa! Esta corrida frenética para a França foi um erro... é brincar de esconde-esconde, como crianças. Porém, neste momento, embora possa ser tarde demais, vou começar a trabalhar de maneira correta, aqui dentro. Silêncio, meus amigos, por gentileza. 
   E durante cinco longas horas o homenzinho ficou sentado no quarto do hotel, imóvel, as pestanas piscando como um gato, os olhos verdes faiscando, tornando-se cada vez mais verdes. O homem da Scotland Yard estava obviamente desdenhoso, o Major Norman estava entediado e impaciente, eu próprio descobri que o tempo passava com uma lentidão cansativa e exasperante. 
   Finalmente, levantei-me e fui até a janela, procurando não fazer qualquer barulho. Aquilo estava-se transformando numa farsa. Mostrava-me secretamente preocupado por meu amigo. Se ele tivesse mesmo que fracassar, eu preferiria que fracassasse de uma maneira menos ridícula. Pela janela, fiquei observando um barco atracar, arrotando colunas de fumaça para o ar. 
   Subitamente, fui despertado de meus devaneios pela voz de Poirot, bem perto de mim: 
 - Mes amis, vamos começar!"


Logo, Poirot confirma sua tese.

O Primeiro-Ministro havia sido vítima de dois incidentes ao mesmo tempo. De caminho para a França, para uma reunião de cúpula ao final da 1ª Guerra, o Primeiro-Ministro sofre um atentado a bala ainda na Inglaterra. Vai ao Hospital, recebe tratamento - leia-se: ataduras na testa - e segue sua importante viagem. Na França, é sequestrado.

Poirot não consegue convencer-se da seqüência de fatos. Seria muita coincidência dois atentados, um logo após o outro, por grupos distintos. E não haveria nenhum sentido um atentado à bala primeiro, e um sequestro, em seguida, vindos de um mesmo grupo. O único sentido para o primeiro atentado, então, seria fazer com que o Primeiro-Ministro, ou melhor, alguém fazendo-se passar pelo Primeiro-Ministro, pudesse ir à França com ataduras na cabeça.

Para Poirot foi o suficiente! Baseando-se nessa tese regressaram à França e vasculharam casas e hospitais. Encontraram, finalmente, o Primeiro-Ministro na casa de uma agente alemã escondida. E à tempo para a reunião.

Brilhante! Como sempre...

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Os dois contos seguintes são: "A Aventura do Apartamento Barato" e "O Mistério de Hunter's Lodge".

No primeiro, Hastings e Poirot se envolvem em um roubo internacional de documentos secretos de guerra. Hastings é apresentado como um "decifrador de mistérios" que, a rigor, não decifra absolutamente nada. Começo a ficar com a impressão de que nessas históriais iniciais, Agatha usava o Hastings - mero coadjuvante - para que pudesse mostrar a todos as qualidades de Poirot. Ele - o Capitão - não ajuda em absolutamente nada, e, ao contrário, muitas vezes só atrapalha.

Aqui, investiga-se o "estranho" mistério de um apartamento que estava sendo sublocado por algo como 1/10 do valor original da locação. Em um jantar, esse assunto foi comentado a Hastings. Um casal de conhecidos, os Robinsons, haviam conseguido esse apartamento. O curioso era que um outro casal conhecido, pouco antes, havia se dirigido ao imóvel e foram informados que o apartamento estava ocupado. Foi aí que - durante o jantar - Hastings, o "decifrador de mistérios", foi indagado. Qual sua opinião? Bem, o outro casal certamente teria errado o número do apartamento. Simples e lógico.

Desconfiado de suas próprias conclusões, Hastings indaga Poirot sobre isso. Por diversão, Poirot se interessa pelo caso e, pouco tempo depois, já tem uma teoria. Como não tinha nada melhor para fazer, decide se dedicar ao mistério do apartamento barato.

Logo, Poirot e Hastings vão ao imóvel e fazem perguntas ao Porteiro. A principal delas, que leva à confirmação de sua teoria. Há quanto tempo os Robinsons moravam no imóvel. Seis meses foi a resposta. Eh bien, diria Poirot, isso é estranho, pois o imóvel havia sido sublocado apenas há alguns dias.

Então, Poirot aluga um outro apartamento no mesmo imóvel, e decide investigar.

Começa, então, a fazer associações que o levam a descobrir toda a trama.

Existiam dois casais Robinsons. Um deles era americano, e estava envolvido com o roubo dos documentos. Eles haviam sublocado a outro casal "Robinson". Descoberta a trama, bastou telegrafar à polícia. Caso encerrado.


No conto seguinte, Hastings tem a oportunidade de conduzir diretamente a investigação. Poirot está com febre - no inglês há um trocadinho ótimo sobre isso - e Hastings vai a campo. E, mais uma vez, Poirot tem a oportunidade de exibir todas as suas qualidades cerebrais. Mesmo febris, suas céluas cinzentas funcionam, e muito bem! Comento sobre ele depois!

domingo, 21 de fevereiro de 2010

"Vamos começar pelo princípio, meu caro Hastings. Temos uma mulher inteligente e astuta. Sabe da débâcle financeira do marido, um homem mais velho, com quem se casou apenas por dinheiro. Convence-o a fazer um seguro de vida vultoso e depois começa a procurar uma maneira segura de executar o plano de matá-lo, a fim de receber o dinheiro. E o acaso lhe proporciona isso, através da estranha história contada por um jovem militar. Na tarde seguinte, quando monsieur le capitaine já está em alto-mar, segundo ela pensa, sai com o marido a passear pela propriedade. 'Que história estranha a que o capitão contou ontem à noite!', comenta ela. 'Será que um homem poderia atirar em si mesmo dessa maneira? Mostre-me que eu quero ver se é possível!' E o pobre do marido... concorda em mostrar! Coloca o cano da espingarda na boca. Ela se abaixa e encosta o dedo no gatilho, rindo para ele. E diz, jovialmente: 'E agora, meu caro, o que aconteceria se eu puxasse o gatilho?' - Poirot fez uma breve pausa e arrematou - E depois, Hastings... ela puxou o gatilho!"

Esse é o fim de A Tragédia de Marsdon Manor.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

“A tragédia de Marsdon Manor”

Domingo de Carnaval A tragédia de Marsdon Manor começa com Poirot investigando uma morte. Até onde sei – por enquanto – não se sabe se foi uma morte por causas naturais, um homicídio ou um suicídio. O de cujus havia feito um seguro de 500 mil libras em favor de sua jovem esposa um mês antes de sua morte, e a Seguradora pede a Poirot que investigue as causas da morte. Há – na apólice de seguro – uma isenção de indenização em caso de suicídio. Ah, a “vítima” estava quebrado financeiramente...

Por enquanto é só.

Vou curtir o resto desse domingo de sol, muito sol...

sábado, 13 de fevereiro de 2010

A aventura do “Estrela do Ocidente”.

 

Esse é o primeiro conto do livro “Poirot Investiga”. Novamente o Capitão Hastings é o narrador desse pequeno conto no qual Poirot ajuda a solucionar o caso do roubo de dois diamantes.

 

A Sra. Mary Marvell, esposa do ator americano Sr. Rolf, procura Poirot para aconselhar-se sobre três cartas que havia recebido ameaçando-a com o roubo de um diamante, o Estrela do Ocidente. Esse diamante havia sido adquirido por seu marido por um décimo do valor, segundo dito por ele.

 

Pouco depois desse encontro, Poirot sai, e Hastings recebe sozinho a Sra. Yardly, que é persuadida – essa é a chave do conto – por Hastings de que teria recebido também cartas que ameaçavam o roubo de seu próprio diamante, o Estrela do Oriente. Hastings sente-se triunfal até que percebe que não avança absolutamente sozinho.

 

Os casais iriam se encontrar. O Sr. Yardly, com dívidas mas proprietário de uma das mais tradicionais propriedades inglesas, hesitava em alugá-la para o Sr. Rolf para servir de locação para um futuro filme. Iriam discutir esse tema. Em meio a isto, o Sr. Yardly tenciona vender o diamante.

 

Na noite em que receberia o emissário do suposto comprador, ocorre o roubo do diamante da Sra. Yardly – com Poirot presente. No dia seguinte, ocorre o roubo do diamante da Sra. Mary. Horas após Poirot aparece na presença do Sr. Yardly com o diamante, com uma história de que ele teria forjado o roubo do diamante da Sra. Yardly, para proteger-lhe como havia prometido.

 

A Sra. Mary fica sem o seu diamante.

 

Finalmente, Poirot abre o jogo para Hastings: tudo combinado.

 

Poirot soubera de um ligeiro affair entre o Sr. Rolf e a Sra. Yardly. Ela foi chantageada por ele e acabou entregando-lhe seu próprio diamante, o “Estrela do Oriente”, pondo uma réplica no lugar. Agora, com a possibilidade de venda, o Sr. Rolf se compromete a restituir o diamante à sua legítima proprietária, e juntos armam os roubos.

 

No final, Hastings é ridicularizado por Poirot e fica bravo: “Está tudo muito bem, mas você me fez bancar o idiota! Do princípio ao fim! E não importa que tenha explicado toda a história depois! Há um limite para tudo!

 

O próximo conto é “A tragédia de Marsdon Manor”.

 

 

 

Estou configurando o blog e já pensando nos próximos posts. Pelo menos estou empolgado ... ao menos neste sábado. Minha querida R. me chama. São Paulo e Ituano se enfrentam. Vou acompanhá-la.
"Minha teoria é a verdade - declarou Poirot calmamente. E a verdade é necessariamente correta.".



Sábado pela manhã.

Após decifrar o Caso Styles e o Assassinato no Campo de Golfe começo - já com atraso - a escrever algumas impressões sobre esses crimes, sobre seus personagens e, principalmente, sobre o detetive responsável por solucioná-los: Hercule Poirot.

Por iniciativa da minha querida esposa iniciamos um "Clube de Leitura" dos livros da Agatha Christie que envolvem o Hercule Poirot, esse ex-policial belga que por muitas tardas fez companhia a minha querida R. e a mim.

Particularmente, não sou o maior fã do gênero policial. Prefiro livros de não-ficção, especialmente os relacionados à história da 1ª metade do Século XX. Mas deixei-me seduzir pela oferta da R. Ok! Vamos fazer uma leitura conjunta de todos os livros, na ordem recomendada... Eu no português, ela no inglês. Bem, tenho de fazer essa confissão. A R. lê, compreende e armazena informações no português com uma velocidade alucinante, e mesmo em outros idiomas tenho de me esforçar muito para alcançá-la. Mas somos um casal companheiro, e ela sempre me espera.

Neste caso - fomos influenciados por dois filmes interessantes: aquele sobre o clube de leitura da Jane Austen, e o das Julias. O primeiro deu à R. a idéia de fazermos a leitura conjunta. Do último peguei a idéia de, hoje, escrever em um Blog.

Quanto à leitura, já iniciamos o clube há quase um mês. Nesse período já lemos as duas seguintes obras:

- O misterioso caso de Styles
- Assassinato no campo de golfe

São ótimas. Nelas, o narrador é o policial inglês Hastings. Convenhamos que ele não é o mais esperto de todos os policiais. Mas também ele não é bem um policial, é um militar. Como diria Hercule Poirot, com seu inconfundível sotaque: "Mon ami, use sua massa cinzenta". Por vezes, Hercule Poirot é até mesmo rude com seu amigo.

Em Styles, Poirot investiga o assassinato da proprietária de uma próspera propriedade de mesmo nome. Os dois principais suspeitos são o marido dela, Alfred Inglethorp, muito mais jovem que ela, e um de seus filhos, Jonh Cavendish.

Neste livro tomamos conhecimento com os procedimentos da Justiça Inglesa. Seus inquéritos, a investigação conduzida por um Magistrado, e com um Julgamento propriamente dito. Poirot ainda é um obscuro - embora muitíssimo condecorado - detetive particular que casualmente morava próximo a Styles. O encontro dele com Hastings na obra é casual, e a obra, sensacional!

Enquanto ainda não tinha provas da autoria, anunciou, maravilhosamente: "Uma coisa é saber que um homem é culpado, outra muito diferente é conseguir prová-lo. E neste caso há uma terrível escassez de provas. Eu, Hercule Poirot, posso saber de tudo, mas falta um último elo na corrente. E a menos que eu consiga descobrir esse elo que está faltando...".

A arma do crime: estricnina depositado no fundo do medicamento da vítima. Ação retardada pela ingestão com o chocolate! Poirot foi muito esperto.

Vejam informações genéricas em:
http://pt.wikipedia.org/wiki/The_Mysterious_Affair_at_Styles


Em Assassinato no Campo de Golfe, o mote é: duas vítimas, um só crime. Poderia resumir assim: Filho de assassino foragido é chantageado por sua cúmplice. Filho de assassino foragido está enamorado da filha de sua cúmplice. Esposa da vítima trama um falso assassinato, que se torna real. Há um toque Disney, com a personagem Cinderela, que aparece no início e tem uma participação absolutamente importante no final.

Nesse livro nos deliciamos com embate direto entre Poirot com o francês Giraud. Este último tem métodos de um "perdigueiro humano", como disse Poirot. Para os nossos tempos, o francês está mais para um policial do CSI.

De Poirot para Hastings: "Minha teoria é a verdade - declarou Poirot calmamente. E a verdade é necessariamente correta.". E, zombando de Hastings: "Mon Dieus! Mas é muito triste! Uma boa inteligência... e lamentavelmente carecendo de método!".

Meu livro o caso Styles é a 9ª edição, da Editora Record, traduzido por A.B. Pinheiro de Lemos. Meu livro do Assassinato no Campo de Golfe é uma edição de bolso da BestBolso, o mesmo tradutor. É isso. Basta para a primeira postagem.

Pela ordem, teríamos de ler agora a obra "Christmas Adventure". É uma história curta. Mas não conseguimos localizá-la nem em português, tampouco em inglês. E relutamos em obtê-la por meios ilegais. Então, vamos deixá-la pendente. Pularemos direto para "Poirot Investiga". É uma série de contos relativamente curtos.